No coração do Pelourinho, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos guarda, em cada pedra e em cada azulejo, a memória de uma das páginas mais comoventes da história da evangelização no Brasil: a de milhares de homens e mulheres escravizados que, mesmo sob o peso do cativeiro, souberam professar e celebrar a fé católica com uma devoção exemplar a Nossa Senhora do Rosário.
A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Salvador foi formalmente constituída em 1685, reunindo sobretudo africanos escravizados de origem banto, congos e angolanos, e situa-se entre as primeiras irmandades de homens pretos organizadas no Brasil, precedida apenas pelas de Olinda, Recife, Rio de Janeiro e Belém do Pará. Reunidas inicialmente nos altares laterais de igrejas matrizes e conventuais, foi somente em 1704 que a irmandade obteve do arcebispo Dom Sebastião Monteiro de Vide a licença para erguer templo próprio, nas então chamadas Portas do Carmo.
A construção da igreja é, em si mesma, um testemunho de fé perseverante. Os escravizados só podiam trabalhar na obra durante as raras horas livres de que dispunham, sobretudo à noite, o que fez com que as obras iniciadas em 1704 se estendessem por quase um século. A fachada e as torres somente ganharam sua feição definitiva a partir de 1780, sob a direção do mestre de obras Caetano José da Costa, e a decoração interna que hoje se admira, em estilo neoclássico, foi executada entre as décadas de 1870 e 1890, quando o entalhador João Simões F. de Souza confeccionou os altares e o pintor José Pinto Lima dos Reis realizou o forro pintado da nave, por volta de 1870.

As duas torres bulbosas, revestidas de azulejos, e os cinco portais de acesso ao nível térreo formam um conjunto que dialoga com a azulejaria portuguesa de fins do século XVIII, atribuída à Real Fábrica do Rato e que ilustra episódios da vida de Nossa Senhora do Rosário e de São Domingos de Gusmão, o fundador da Ordem dos Pregadores a quem se atribui a instituição da devoção do Santo Rosário.
No interior da igreja venera-se ainda hoje uma imagem de Nossa Senhora do Rosário datada do século XVII, originalmente cultuada na antiga Sé de Salvador. Atrás do templo, um antigo cemitério guarda os restos mortais de muitos dos escravizados que ali labutaram e rezaram, lembrança silenciosa de que a fé católica, mesmo em meio às maiores injustiças históricas, ofereceu a homens e mulheres escravizados um espaço de dignidade, de comunhão fraterna e de esperança na vida eterna.

Elevada à condição de Ordem Terceira em julho de 1899, a Irmandade do Rosário permanece ativa até hoje, mantendo viva a tradição de piedade mariana que a fundou. Parte do Centro Histórico de Salvador reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade desde 1985 e registrada pelo IPHAN entre as igrejas barrocas protegidas do país, a Igreja do Rosário dos Pretos permanece, sobretudo, um templo vivo de oração, onde a Igreja Católica Apostólica Romana celebra, com particular significado, a fidelidade daqueles que, mesmo despojados de liberdade civil, jamais foram despojados da liberdade dos filhos de Deus.

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